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Vanda
por Julia Oliveira

“Mais alto, consegue?”

Eu respiro fundo e agarro as bordas da maca. Talvez se tivesse ido na academia em vez de ter apenas me matriculado não estaria sendo tão difícil. Inspiro e empurro meu pé em direção ao o teto. Com o que ainda resta de força, tento levantar de leve o pescoço e busco entre as minhas pernas o rosto de Vanda.
“Tá bom assim?”
Ela não responde, mas sinto a cera quente na nádega e interpreto como um sim.
“Sabe, essa é a melhor posição pra fazer isso", ela me garante e arranca outro pedaço de mim.
Algumas puxadas, alguns como vai sua filha, ah agora ela voltou para o interior, e tua mãe, faz tempo que ela não vem, até que Vanda me dá o aviso: “Pronto, pode baixar.”
Respiro aliviada e amoleço as pernas, as instruções do aplicativo de yoga que instalei essa semana repassando nos ouvidos “descanse na posição final: savasana".
Mas Vanda não está seguindo o mesmo aplicativo que eu. Vanda não para, sempre muito eficiente e elétrica, um coelhinho Duracell com um não tão suave aroma de cigarro.
“Vamos para a parte mais chatinha agora?”
Tento esboçar um sorriso. Com "parte mais chatinha" Vanda quer dizer minha buceta.
"Vamos, Vanda.” E assumo a posição, pernas para o lado, já conheço melhor que downward dog. Vanda puxa o papel e eu mordo o lábio para não gritar.
“Tava precisando mesmo, hein?”
Sim, Vanda, eu sou peluda pra cacete. Minha infeliz buceta é mais peluda que a Mata Atlântica. Tento sorrir por entre os lábios apertados.
Em que momento começa a doutrinação do nosso corpo? Quando, e quem, determinou que a normativa da mulher adulta era uma buceta pré-púbere? Genitália endeusada pela pornografia, rosada, limpa, úmida, pequena, quente, fácil.
“Vamos fazer atrás?”
Vanda me encara por trás da máscara, uma folha de cera ainda numa das mãos.
Por que não, não é mesmo, Vanda? E assumo a posição. Essas eu treino há muito mais tempo do que yoga. E sinto a colocação da cera, Vanda sempre muito meticulosa e profissional. Quantos cus e quantas bucetas você vê no seu dia, Vanda? Quantas mulheres saem daqui crianças para o gozo masculino?
Mas aguento até o fim. Abraços, beijos, manda notícias para aquela amiga. Mas a Vanda sabe que logo nos veremos. Porque por mais que o mundo, Vanda e eu tentemos doutrinar meu corpo, ele é rebelde, é corpo próprio de si, e crescem-se nele os pelos quando lhe quiserem e o quanto lhe quiserem. Então eu volto. Porque eu e Vanda aprendemos assim. Namastê.




Julia Oliveira (1995, Porto Alegre) @jzubaran

Escritora do conto "refeição de vampiro", aclamado por sua professora da primeira série e por sua mãe, hoje explora suas (não) relações e (sim) crises inter-espaciais por meio da palavra e do [ espaço em branco ]. Mora na sua cidade e trabalha na sua área, coisas que lhe trazem muito prazer e extrema angústia.