ESPAÇO
.CC
/CARTOGRAFIAS
TEXTOS






Para além dos laços sanguíneos
por Giulia Tofanini de Souza


  À Guará

    A Solidão era algo que nos unia. Eu sabia como você se sentia, mas não sei se você sabia o meu estado. Todas as vezes que você me contava a história da sua vida e chorava por algum momento perdido, eu sabia que você tinha a mesma sensação que eu. Eu tentava te alegrar, mudar de assunto, bruscamente, e você me acompanhava. Ao chegar em casa, era eu quem chorava, culpada.

    Eu e você, vó, sempre fomos próximas. À medida que fui envelhecendo, tendo mais responsabilidades, não pude ficar o tempo todo com você. As minhas visitas ficaram cada vez mais espaçadas. Quando você teve o AVC, três anos atrás, eu sabia que não teria muito tempo para ficar e te fazer companhia. O hospital tornou-se um ambiente frequente, e os familiares revezavam-se para te acompanhar no quarto. Você odiava ficar sozinha. Você também odiava hospital.

    Há algumas semanas atrás, você partiu. A única coisa que sei sobre a morte é o trauma que fica como cicatriz que nunca cura, e também o mistério que a ronda. Não sei se você está num lugar melhor, pior, nem sei se você está. Mas quero que saiba que as suas lembranças me ajudarão a cuidar das cicatrizes deixadas pela sua partida.

    A última vez que nos vimos, você queria muito voltar para a Casa, mas sabia que não podia, e, ao mesmo tempo, sentia-se como um fardo para a família. Mas você nunca foi um fardo, e nem uma pena. Cuidar de você e te fazer companhia nunca foi um peso para mim, apesar do tempo escasso, o amor era verdadeiro e intenso. Ele se consumava em seu ritual de limpar os lábios antes de me dar um beijo de adeus, porque não gostava de beijos babados.

    Agora, é difícil seguir sem você, porque nunca mais terei suas mãos e seus cabelos, nem o seu sorriso. O que nos resta é a lembrança. Quando desço para tomar sol, meu único entretenimento diário, as flores me cumprimentam com suas pétalas coloridas e as borboletas curiosas sobrevoam a minha cabeça. Elas me lembram você, porque também colorida e curiosa, mas, sobretudo, porque quando as vejo, não me sinto só.




Giulia Tofanini de Souza (1998, São Paulo) @giuliacats2

Sou uma estudante de história que não lê só historiografia, pois amo literatura. A minha maior descoberta do "Apocalipse 2020" foi descobrir que eu também posso produzir isso que amo. Sou de São Paulo, capital, e estudo História na Faculdade de Filosofia (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Ansiosa para retornar à Florestan, meu templo em forma de biblioteca.