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Ligações
por Marina Ruzzi

   
Enquanto fechava a porta atrás de si, Alice recapitulava suas pendências para a manhã seguinte. Sua vida de jornalista investigativa seria assim por algum tempo: dias insuficientemente curtos; histórias cuja novidade evaporava à medida que as palavras eram escritas na tela; expectativa de excelência em meio à tantas pressões - e ainda em outro idioma. Mas gostava. Gostava da adrenalina e do senso de urgência, de importância. Só não conseguia estabelecer rotinas.
    Ao pegar o celular, uma chamada não atendida. E aí estava, seu talvez único ponto fixo em sua vida tão inconstante: a ligação noturna de mamãe.
    A ligação (ou ligações, havia dias em que a mãe se fazia mais presente) a acompanhava diariamente desde que saíra de casa, há quase 10 anos. Em toda conversa, o mesmo roteiro. A pergunta repetida tantas vezes que já incorporara seu modo de pensar. Era como se o toque do celular já a colocasse em um estado mais meditativo. Houve muita prática.
    A mãe, sempre constante, com sua pergunta: "e como você está se sentindo, minha filha?". Não havia dia em que Alice não era confrontada com esse questionamento. E a mãe não permitia respostas prontas, genéricas ou curtas. Havia regras. Qual era o sentimento? Afinal, esse era o verbo empregado. E Alice tinha que elaborar, ainda que minimamente.
    No começo, Alice achava que a pergunta vinha do receio que a mãe podia sentir com a filha imigrante, vulnerável aos ventos do norte. Claro que o começo tinha tido seus percalços. Por mais que estranhasse a pergunta diária, algo que na convivência física não se apresentava, Alice sentia um alívio nessa cotidianice, nesse convite pra dentro, na voz da mãe.
    Após alguns anos, contudo, chegou o momento da revolta. Não entendia a receita pronta que a mãe lhe administrava quase à força, como se fosse um medicamento de uso controlado, e ela uma enfermeira lidando com uma paciente acamada e resistente. A mãe, com a paciência que só lhe amalgamava ainda mais à imagem projetada, não elevava o tom de voz, e insistia. "Como se sente, Alice?".
    Beirava o insuportável. Como a mãe lhe cobrava. Milhares de quilómetros de distância e se sentia sufocar. Por que se mudar se a presença seria ainda tão constante, tão íntima? Na correria do dia a dia, na gritaria da sala de redação, no silêncio quase sonâmbulo de seu apartamento, ter de responder à mesma pergunta, de novo de novo de novo.
    Começou com respostas prontas. Cansada. Exausta. Distraída. Concentrada. Ao que a mãe não aceitava simplesmente, queria saber mais, queria que ela elaborasse. Foram muitas as explosões. Por que não podiam ter uma conversa normal? Leve e descontraída?
    Deixou, por fim, de atender às chamadas. Quando o rosto da mãe aparecia na tela, enviava a resposta automática informado estar ocupada. Ela, então, passou a mandar sua pergunta por escrito. Todos os dias. Todos os dias!
    Alice conseguia ouvir o tom ansioso da mãe. O tom preocupado. O tom certo de que Alice não estava feliz. Que raiva que brotava e se apegava ao corpo cansado! A cada dia era um tom ainda mais insinuoso, mais maquiavélico, mais controlador.
    Claro que não poderia bloquear a mãe, isso seria muito drástico, mas o sangue fervia a cada dia em que era obrigada a ler suas palavras. Não entendia a sua ousadia, sua persistência.
    Após alguns meses de seletiva comunicação por mensagens, num momento de especial rancor, ao ler o "oi filha, como está se sentindo hoje?", Alice decidiu que quebraria o silêncio para lhe falar umas verdades. Esse tom desdenhoso que em nada colaborava para o seu bem estar tinha de acabar. Ligou imediatamente, num rompante de fúria e a mãe atendeu de primeira. Antes que pudesse falar qualquer um dos limites que se clarificavam dentro de si, a mãe falou tão serena, tão amorosa. Alice percebeu que tinha estado esse tempo todo diante de um espelho.
    A mãe nem precisou lhe perguntar, pois Alice já chorava e falava do que sentia e do que vinha sentindo nos últimos tempos. Desde então, atribuiu à pergunta a confiança de medicação homeopática preventiva: um hábito que por natureza pode ser penoso de assumir, mas que previne males maiores.
    As conversas passaram a ser bem-vindas. Na correria diária, na alienação do trabalho, não era natural trazer para dentro o olhar. As ligações a obrigavam a fazê-lo, de modo leve e habitual, um exercício poderoso para não deixar acumular os desconfortos emocionais.
    A mãe, por sua vez, era econômica e cirúrgica nas suas palavras. Cobrava respostas completas, interessava-se menos pelos fatos e mais pelos sentimentos. Mostrava-se curiosa, atenta e evocava sentimentos pretéritos para identificar padrões. Ouvinte exigente, mas que fazia parecer ter um colo suficientemente grande que incluísse todo o Atlântico.
    Suas respostas, contudo, eram igualmente previsíveis e evasivas. Sempre que Alice se arriscava a perguntar à senhora como ela estava se sentindo, no máximo recebia um prognóstico clínico em relação à sua saúde (estou bem, os exames voltaram todos ótimos, hoje tive uma pequena dor de cabeça), atualizações em relação aos membros da família (seu pai anda trabalhando muito, seu irmão terminou a relação, sua prima está de emprego novo) e então uma desculpa sobre algo urgente para fazer. As regras nunca se aplicavam à mamãe.
    Também essa assimetria alimentou a revolta do 3o ano. Mas logo aceitou que sua mãe queria cuidar-lhe e deixou-se ser.

    O pai ligava mais esporadicamente. Uma conversa menos íntima, mas não era de todo impessoal. Papai se focava no dia a dia, nos afazeres. Perguntava sobre a cultura em que se inserira, os ritmo da cidade, os comércios. Criava um mapa mental dos caminhos percorridos pela filha tão distante. Às vezes, mencionava alguma pesquisa no google, buscando imagens e notícias para preencher os vazios. Era como se nessa tentativa, buscasse caminhar com a filha em sua nova vida, estreitando as distâncias.
    A mãe, em suas investigações emocionais, não teria condições de entender tão a fundo a rotina da filha. Talvez, pudesse ter pistas a partir das emoções que surgiam, mas certamente faltavam a ela elementos concretos. Mas Alice imaginava que, ao final do dia, as duas conversas se mesclavam na cama que dividiam. Razão e sentimento. O exterior e o interior. Que não deve haver intimidade maior do que criar uma vida e avaliar conjuntamente os seus desdobramentos. Não parecia haver segredos entre os pais. Mas nunca eram indiscretos em relação ao que teriam ouvido do parceiro, de modo que era só uma imagem que Alice por vezes pintava em suas pálpebras antes de dormir.
    Pensava agora na casa dos pais. Amava a vida que tinha construído naquela terra distante, tudo fazia sentido e era muito seu. Mas havia momentos em que desejava, quase violentamente, sentir o cheiro do café da mãe, servido na xícara florida herdada da avó, enquanto esperava o pai trazer, contente, o pão fresquinho da padaria da esquina, e que chegando, queria saber como era o café da manhã em “sua cidade”. Talvez devesse insistir para que viessem conhecê-la, por fim. Alimentar as memórias do pai com imagens concretas, experiências pessoais. Já era tempo.

    Alice esquenta a sopa que fizera na noite anterior e senta-se à mesa. Decide retornar a ligação naquele momento, aguardando o tradicional e certeiro como-tá-se-sentindo-hoje-minha-filha. Já adiantando mentalmente qual o espírito que irá transmitir à mãe. A mãe atende rapidamente e já interpela “hoje, Alice, não estou nada bem”. Alice trava. Foram tantos anos ensaiados, que não sabe sequer como interpretar o que está acontecendo. Seria o jeito da mãe falar que algo muito grave teria acontecido? Estariam todos bem? O que isso significava? O que poderia suscitar uma mudança tão repentina no diálogo unilateral que construíram ao longo de quase uma década, à entrega tão abnegada da mãe? Alice percebeu que se acostumara a esse aconchego, como se fosse uma parte da infância dilatada na vida adulta.
    Alguns segundos se passam e a mãe insiste. “Nada bem”.  Recobrando os sentidos, Alice busca transmitir a mesma calma que sempre lhe foi reservada pela mãe. “É mesmo, mãe? O que está sentindo exatamente? ‘Nada bem’ é um dos termos que não querem dizer nada, lembra?”. Aguarda a resposta com o coração pulsando tão fortemente que teme que lhe rompa o peito.
    A mãe suspira. Diz que perdeu as esperanças. Que sempre tivera esperanças, regava-as diariamente, num dever apaixonado, como se dependesse dela o futuro dos filhos. E dos filhos dos outros também, pois sua maternidade se misturava com a de todas as outras mulheres. Mas que agora, o mundo se mostrava tão caótico, tão frio, tão errado… não sabia mais o que esperar. E ao não sabê-lo, o medo se alastrava. O medo de não dar conta. O medo da perda de sentido. O medo de ser tudo insuficiente. O medo.
    Alice sorriu. A conversa se estabelecia, enfim.




Marina Ruzzi (1992, Vila Real/ Portugal) @_ruzz1

Portuguesa migrada para o Brasil, vejo a palavra como unguento e fogueira ao redor da qual nos conectamos. Trabalhadora por uma realidade nova e justa, tenho a arte como o insumo perfeito para a imaginação política. Ser mulher é ser resistência no mundo.