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TEXTOS






Excretora
por Bruna Martins



 
  Aconselhou-me o escritor, um homem sabido e reconhecido, às pressas de seu vôo à Grécia: gere a ideia em teu ventre. Tão bela imagem poética me era penetrada que estremeci honrosa. Um livro que amadureceria com meu sangue doce de mulher.

    Eu padecia de fome naquela noite após uma longa paulestra de paulestranos especialíssimos nas paulestranidades de Antonio Candido - pau de toda obra endêmica. Desse colóquio, descendeu o escritor a derramar sobre mim sua erudição. Minha massa encefálica se alargara consumando tal conhecimento! Muito embora, meu pequeno músculo oco perdurava vão, acanhado em sua inferioridade. Certamente estaria grato em ser anfitrião de uma ideia abstrata e leve, sutilmente assentada em seu colo. Um fundo de sussurros… ideia fecunda.

    O miúdo escritor, que ouvira absorto os traumas que inibiam minha escritura, se tornava graúdo à minha frente. Eu já vislumbrava uma carreira de filhos de sucesso abarrotando as prateleiras. Minha poética reprodutora na mídia digital. Moiras bordando o enxoval da narrativa. Meu nome flanando pelas bocas do povo. Ah! Uma mulher pública, finalmente!

    Mas um sinal rompeu meus devaneios. O escritor no ponto, subiu no ônibus, os Jardins. Sozinha, segui. Um corpo expandindo-se no mundo. O fim da avenida, sentido bairro, a barriga atropelando a catraca, enjoada com o esgoto e a cara dos homens. Adentrei a casa prosaica, o fôlego sofregando o peso de ser. Meu quarto, uma bagunça, papel e nanquim. Meus fragmentos tão reles ao chão. Desejei reuni-los e no curvar-me pari: um filho todo meu, por extenso nesta paisagem.

    Então, ouço uma velha voz cavernosa:

    - Carnificina!

    Não, não. Fique mudo. O corpo é uma oficina e o texto, natimorto.
    Chame o que escrevo de aborto.



Bruna Martins (2000, Itamarati de Minas) @brunapasbrune

De onde venho, um microcosmo na zona da mata mineira, a palavra é pouca, bem tímida. Antes no papel do que na boca. Mas os pensamentos sempre me inundaram de criação. Até que entendi que a barragem é imposta, então quero ser clandestina: palavreira & excretora. Sou estudante de Letras em retirância no caos paulistano. Colaboro no Boletim 3x22 e tenho poemas publicados na revista Escamandro.