ESPAÇO
.CC
/CARTOGRAFIAS
TEXTOS






Confidentes
por Stephanie Noelle


“(…) levantava-se, beijava-a, passava-lhe a mão no rosto, e dizia, meio rindo, meio chorando, toda espécie de brincadeiras acariciantes que lhe vinham à mente…” leu distraidamente enquanto rabiscava com o lápis preto formas ininteligíveis na beirada do caderno, até que a ponta se espatifou. foi só aí que percebeu que não havia guardado nem uma mísera palavra do que acabara de ler e foi preciso recomeçar. ajeitou-se na cadeira, postura reta, até assoprou o livro como um gesto de zelo para o caso de alguém estar de olho nos cuidados dela com os livros didáticos - ninguém estava. recomeçou. “Quando ele via de longe o seu andar preguiçoso e a sua cintura girar molemente sobre os quadris sem espartilho, quando de frente um para o outro, ele a contemplava, bem à vontade, e ela tomava, sentada, poses cansadas em sua poltrona, então a…” e não conseguiu chegar ao fim do parágrafo pois naquele momento raquel a espetava com a ponta de um lápis pelas costas, clamando por sua atenção. justo agora que ela havia engatado e até vislumbrado Emma Bovary e seus quadris molinhos vindo em sua direção, sem espartilho… “pega!”, sussurrou raquel num tom agudo ao mesmo tempo em que passava um papel dobrado em muitas partezinhas por debaixo da mesa. “cuidado”, acrescentou. ela falava perto demais do lóbulo da orelha direita de veronica, e seu hálito de hortelã aliado ao seu tom sussurrante foi o par perfeito para a imagem que havia criado instantes antes de Emma Bovary vindo em sua direção. não fazia mal nenhum imaginar essas coisas, fazia? de qualquer forma, abriu o papel por debaixo da carteira, curiosa e excitada, já sem saber ao certo se pelo livro, pela raquel sussurrando no seu ouvido ou pela iminência de descobrir mais um segredo da recém-amiga.

não fazia muito tempo que as duas haviam começado a trocar bilhetes durante as aulas. não era como se elas tivessem muito a ver, e talvez por isso mesmo uma era a confidente ideal da outra. raquel era perfeita. sério, ela era. seu corpo atlético fazia jus às suas habilidades em absolutamente todos os esportes que jogava, enquanto veronica passava todas as aulas de educação física buscando passar despercebida nos degraus mais altos da arquibancada. era uma das poucas garotas do segundo ano que não tinha espinha, seu peito e sua bunda eram proporcionais e redondinhos e ela tinha uma qualidade indispensável para uma garota se dar bem no ensino médio: não era inteligente demais. era apenas o suficiente. não era amostrada, não era a sabe-tudo, não contestava ninguém, não ameaçava nenhuma masculinidade. logo, era a garota que todas queriam ser e todos queriam ter. dizer que as duas eram opostos completos não parece acurado, mas serve por agora.
por serem tão diferentes, não se aproximaram logo de início. foi preciso um ano, dois namorados e um estágio em comum para que as duas vissem vantagem nessa relação. as tardes ociosas na recepção da secretaria da escola e a impossibilidade de falar em voz alta sobre seus namoricos na frente de três mulheres de meia idade levaram-nas a apelarem para a criatividade: o bom e velho lápis e papel. 
elas não saiam juntas, não se ligavam aos finais de semana, não passavam o recreio deitadas uma no colo da outra. era difícil até perceber que elas já não se odiavam. a relação entre as duas era analógica. se dava através dos tais bilhetes - e apenas por eles - e o assunto era sempre o mesmo.
abriu.
“a gente fez.
por favor, não conta pra ninguém!”
ora, ora, ora. ficou levemente surpresa. afinal, poucas semanas antes, num daqueles mesmos bilhetes, raquel dissera que embora estivesse morrendo de vontade de trepar - não, ela nunca escreveria trepar - não o faria. não, não, ela ia se guardar até o casamento. “tenho medo dele não me querer depois. se a gente dá tudo o que eles querem, não sobra nada pro casamento, e eles nos trocam por outra que não esteja usada. eu penso assim”, escrevera num papel amassado. minutos antes, veronica havia contado sobre sua primeira vez com o namorado. péssimo timing para o moralismo, mas assim era raquel. uma moralista hipócrita que não perdia a oportunidade de lustrar sua imagem de boa moça. a única que sabia das suas estripulias com rodolfinho, o garoto-simpatia do terceirão a quem cabia o título de ‘seu namorado’, era veronica. soube da vez que ela tirou o sutiã para que ele pudesse primeiro admirar e só depois (na segunda ou na terceira vez? não se lembrava mais) poder encostar a mão. encostar mesmo. o garoto era tão verde que mal sabia o que fazer com sua mão naqueles peitos. o puro desperdício. se a perguntassem, saberia exatamente o que fazer. começaria com a pontinha dos dedos, para deixá-la arrepiada e com o bico durinho, durinho. o infeliz, no entanto, segundo consta os registros, encostou nos peitos do dito amor-da-vida-dele sem nem preencher a mão toda. ficou lá, com a mão murcha e o pau duro.
soube também da primeira vez que ela o chupou e de todas as paranóias que vieram em seguida. “será que ele gostou?” (“ele gozou?” “não escreve essa palavra, é feia. não sei, não vi”). “será que eu mordi?” (“ele gritou?” “não.” “então você não mordeu”). “será que tô com bafo dele?” (“amiga.....”) “será que eu vou ficar grávida?”. juro. juro juradinho. foram dias nessa dúvida completamente irracional. ela não contou da primeira vez que ele a chupou. ou que ele a fez gozar e gritar e espernear enquanto enfiava dois dedos nela ao mesmo tempo em que a lambia. claro que não, porque isso nunca aconteceu. talvez não tenha acontecido até hoje, quinze anos depois.
“uau! achei que você queria esperar...!
como foi?”, respondeu. podia ter só perguntado como foi, se ela estava bem, se tinha gostado - e gozado. mas não. não quis deixar passar a oportunidade de apontar, mesmo que de leve, sua contradição. entregou o bilhete dentro do estojo - uma velha tática delas - e na mesma hora se arrependeu do que havia escrito. sabia que ia deixá-la incomodada, talvez até triste. pensou em pegar o estojo de volta, mas era tarde demais, pois ele já estava sendo aberto.
ela demorou mais do que o normal pra responder. sabia porque conseguia ouvir sua respiração mais alta, provavelmente pensando no que escreveria. também não tinha se debruçado sobre a mesa pra começar a escrever - outro movimento já decorado por veronica. sabia que tinha tocado em um ponto fraco da amiga, mas não era novidade. a relação das duas vivia nessa corda bamba.
“senti que eu tava pronta. ele me mandou até um buquê de flores depois, fofo, né?”
mentia. queria escrever que ele tinha botado uma pressão - ficara sabendo que o amigo tinha transado semanas antes com veronica, e não queria ficar pra trás. falou todas as bobagens, de “você sabe que eu te amo”, até “a gente vai casar, tanto faz ser agora ou depois”, o pacote completo. nem “você me ama de verdade? não parece!” ficou de fora. raquel cedeu, mas não queria. chegou em casa, demorou no banho, se sentiu confusa. foi dormir pensando que no dia seguinte iria contar pra amiga. quem sabe ela teria algo legal pra falar? quem sabe ela não diria que também não teve tanta certeza?
pelo contrário. ao desdobrar o bilhete sentiu seu rosto arder e ficou com vergonha - mesmo que ninguém além das duas soubessem do ocorrido. ao responder, incluiu o toque das flores. vira e mexe rodolfo lhe dava presentes, fazia gestos performáticos - um dia até dedicou uma música na rádio da escola para ela - enquanto veronica não ganhava um mísero pão de queijo do namorado nerd-do-videogame. fato que obviamente a incomodava - como quase qualquer garota de 16 anos se incomodaria. raquel fez questão de acrescentar as flores, mesmo tendo-as inventado. dessa vez não houvera flores ou sequer uma caixinha de bombons sortidos. chegou a pensar que tinha perdido o namorado. que seu encanto havia acabado, que ele tinha conseguido o que queria e bola pra frente. era muito pra processar.
“espero que ele tenha sido fofo com você durante, também! cê sabe que é um filé….
me conta, cê gostou?”
, devolveu vero, querendo significar todas as 20 palavras como um pedido de desculpas, uma bandeira branca. tinha cruzado a linha e queria voltar para o terreno seguro. tanto porque não queria chateá-la (mais), quanto porque queria o resto da história.
tinha gostado? pensou, olhando para o pedaço de folha pautada na sua mão. tinha sido incômodo, dolorido demais, e, antes de começarem, ele pediu para que fizessem no chão “para não manchar meu lençol e minha mãe descobrir...”. sobrepôs duas toalhas de banho, escuras e usadas (nada de lençóis macios e cheirosinhos como ela havia imaginado inúmeras vezes) no piso ao lado da cama de solteiro e antes mesmo de apagar a luz já estava sem roupa e em cima dela. “não vai apagar a luz?” perguntou? mas ele já estava duro e a beijava com pressa, de modo que transaram sob uma luz branca intensa, com ela olhando diretamente para a cômoda do namorado, decorada com fotos das suas versões bebê no colo da avó - ainda viva, assoprando as velinhas aos 4 anos de idade ao lado dos pais e recebendo diploma da 8ª série. teve dificuldades em parar de imaginar a sogra, o sogro e a senhora de mais de 80 anos e cabelos branco ali, de camarote, vendo-a perder a virgindade. pensando bem, se eles ali estivessem talvez ela sentisse alguma emoção.
pensou em escrever tudo isso. em deixar a máscara cair pelo menos uma vez e se aproveitar do amparo da amiga - quando ela não estava sendo uma irônica egoísta, sabia ser uma boa ouvinte e conselheira. fora que sabia elevar a autoestima de raquel a níveis estratosféricos ao mesmo tempo em que fazia os meninos parecerem bonequinhos de Lego, inexpressivos e inertes.
“foi incrível, igualzinho nos meus sonhos. ele acendeu velas, colocou aquela música que eu aaaamo, ‘you’re beautiful’, foi super carinhoso e não doeu quase nada. vou lembrar pra sempre….”
e ia mesmo. dali até anos depois. no dia em que se casaram, e nas muitas, e depois poucas, noites que vieram em sequência, se lembraria para sempre que nunca havia sido diferente.




Stephanie Noelle (1989, Mogi Mirim/SP) @chez_noelle

Jornalista com uma breve-porém-intensa passagem pela publicidade e uma constante via paralela (ou nem tão paralela assim) de criação de conteúdo na internet falando sobre querer ser um milhão de coisas e tudo bem nunca escolher ser uma só. saiu do interior e foi pra são paulo faz mais de dez anos, tem uma quantidade obscena de batons vermelhos e blazers compridos, fala bastante, mas às vezes não fala nada, só escuta.