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Bella
por Laura Beatriz


Já havia passado algumas semanas desde que cometemos o erro de nos apaixonar um pelo outro. Meu amor era também meu potencial assassino. E eu, que havia me descoberto como uma presa mais fácil do que gostaria de ter sido, me afoguei em um mórbido romance com um vampiro.

Apesar de sua habilidade em esconder a morte que carregava ao longo de sua centenária existência, ele não havia se livrado dos velhos hábitos que carregavam os homens da sociedade em seu período de vida. Edward, nascido em 1901, tinha 17 anos desde 1918. Adepto da música clássica, apresentava um comportamento protetor – que conflitava com seu desejo homicida, por sinal - do clássico cavalheiro de romances de época. Puxar a cadeira, abrir a porta do carro, pedir ao meu pai para sair comigo... esse era Edward.

Mesmo assim, para além de uma certa proximidade que mantemos quando estamos a sós, nem mesmo um rápido beijo gélido ocorreu entre nós. Eu consigo entender o motivo de tal distância, sua razão corria em minhas veias diariamente, expurgando-se mensalmente do meu corpo. Apesar disso, estranhamente eu já havia aceitado que estar com ele significa dizer a mim mesma que eu me importava mais com sua presença do que com a minha própria vida. Mas, no final de tudo isso, eu ainda sou uma mulher.

Tais hábitos cavalheirescos e anacrônicos de Edward certamente não eram o que eu tinha em mente daquilo que considerava romântico. Na verdade, minha imagem sobre isso certamente dialogava com  o desejo de me relacionar com alguém cujo meu tipo sanguíneo era o prato preferido. Fecho meus olhos e passo a visualizar...

Imagino Edward com seus olhos negros fitando-me deitada e nua, com as mãos pelas minhas pernas... Da boca ao queixo, seu rosto está repleto do sangue que escorre de meu ulterior. Suspiro e gemidos escapam quando ele se delicia nos meus lábios de Vênus. Entre sugar, morder suavemente e lamber, seus movimentos me contam que isto é sua nova sobremesa preferida.

Sobre meu devaneio, digo a mim mesma que não há nada mais sexy do que um homem, que, nascido em uma sociedade voltada para eles e costurada por eles, excede seus limites de repulsa do que é atribuído ao feminino por causa de seu desejo por sangue. No fim, seu desejo vulgar e com impulsos homicidas. Edward é um vampiro, por certo. Mas não posso esquecer de seu lado humano quando suas mãos sem vida alguma deslizam sobre minhas costas quando ele me aproxima de seu pálido e gélido corpo. O que é um homem sem sua vontade de matar a mulher que ama?

Sei que esta noite ele entrará silenciosamente pela janela do meu quarto como de costume. Talvez seja a hora de apimentar a relação. Deixarei na janela uma taça de seu objeto de desejo (talvez por isso também, seu objeto de repulsa) como uma oferenda.




Laura Beatriz (1999, São Paulo) @laurusb

Como um projeto, nunca termino. Quero retrabalhar-me constantemente até meu prazo chegar. Na escrita literária encontrei mais um espaço de ouvir, desdobrar-me e enxergar, começando pelo tema do ser-mulher. Pretendo escrever sobre quem não é ou sobre o que ainda não existe através das faltas do que já está.